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A ARMADILHA DO PREÇO DE SAÍDA

Foto do escritor: Marcos Thiele
Marcos Thiele
26 de ago.
6 min de leitura

Para alguns empreendedores, a construção de uma empresa está associada a um horizonte de longo prazo, eventualmente atravessando gerações; para outros, especialmente quando pensamos na lógica de investidores profissionais, fundos de private equity ou mesmo sócios empreendedores que já iniciam um novo ciclo com uma tese clara de realização do investimento, existe desde o princípio uma janela de tempo mais definida e uma expectativa igualmente concreta sobre o valor que se pretende alcançar na saída. Nesse contexto, pensar na venda da empresa, acompanhar seu valuation, definir metas de crescimento e estabelecer um preço-alvo fazem parte da própria lógica do investimento, porque o retorno esperado precisa ser realizado em algum momento e é justamente essa perspectiva que organiza uma parcela importante das decisões tomadas ao longo do ciclo.

Ter clareza sobre esse horizonte pode ser bastante saudável. Um preço-alvo obriga os sócios a explicitar expectativas, um prazo coloca pressão sobre prioridades e uma tese de investimento ajuda a concentrar recursos naquilo que parece mais relevante para a criação de valor. A questão que começa a merecer uma observação mais cuidadosa aparece quando essa lógica, essencialmente econômica, passa a fornecer também a principal lente para compreender como o valor será produzido, como se os elementos mais facilmente mensuráveis da organização fossem capazes, por si mesmos, de conduzi-la até o resultado esperado.


A miopia do Ter


Na metodologia da AYUS, os elementos mais facilmente mensuráveis pertencem à Potência do Ter, que reúne a base material e estrutural da organização, incluindo os recursos que sustentam sua existência. Capital, ativos, infraestrutura, dados, resultados financeiros e valor de mercado têm importância concreta e ocupam um lugar necessário na vida empresarial. A própria ideia de potência, porém, sugere algo além da simples posse: um recurso carrega uma possibilidade de realização, e a qualidade do resultado dependerá da capacidade da organização de colocá-lo em movimento.

Nesse ponto, o Ter revela uma espécie de miopia. Quando o horizonte de saída se aproxima e o preço desejado ganha centralidade, é compreensível que os olhos se voltem com intensidade crescente para receita, EBITDA, margem, caixa, ativos, múltiplos e valuation, indicadores fundamentais para acompanhar a evolução econômica do investimento. Ao mesmo tempo, a geração do valor necessário para que esses indicadores avancem continuará dependendo de uma organização capaz de executar uma estratégia, desenvolver pessoas, coordenar decisões, aprender, integrar conhecimentos, preservar relações importantes e adaptar-se às transformações que inevitavelmente ocorrerão dentro da janela de investimento.

Podemos imaginar uma empresa adquirida com um horizonte de saída de cinco anos e uma tese de valorização relativamente clara. O crescimento esperado pode depender da abertura de novos mercados, de ganho de eficiência, da ampliação de margem, da entrada em novos canais, de aquisições complementares ou da profissionalização da gestão. Na planilha, cada uma dessas iniciativas pode ser traduzida em premissas econômicas e, ao final, em uma projeção de valor. Na vida concreta da organização, entretanto, cada premissa precisará encontrar capacidades capazes de realizá-la.

Uma aquisição poderá parecer extremamente atraente na perspectiva financeira e gerar pouco valor se a organização não possuir capacidade para integrar culturas, processos e lideranças. Uma estratégia de aumento de margem poderá produzir excelentes resultados no curto prazo e, dependendo de como for conduzida, consumir competências ou relações necessárias para o próximo estágio. Da mesma maneira, reduzir a dependência do fundador pode aparecer como um objetivo evidente em uma due diligence e ainda assim exigir um processo bastante mais profundo de formação de lideranças, circulação de conhecimento e amadurecimento da própria arquitetura de decisão.

É nesse sentido que resultados são, de fato, resultados. A expectativa de valorização que sustenta uma futura venda da empresa precisará, em algum momento, encontrar correspondência em caixa, margem, clientes, qualidade de entrega, reputação, produtividade, capacidade de execução e aprendizagem. O valuation procura antecipar economicamente uma parte desse futuro, mas aquilo que permitirá concretizá-lo estará sendo construído diariamente em processos que nem sempre aparecem com a mesma nitidez nos relatórios financeiros.


Da potência ao valor realizado


A perspectiva das Potências ajuda a ampliar essa leitura porque o Ter convive com outras capacidades igualmente relevantes para transformar recursos em performance. Produzir diz respeito justamente à capacidade de realizar e entregar por meio de processos e estruturas organizadas; Agir envolve a força das relações, da liderança e das interações humanas; Saber está associado à inteligência estratégica que permite compreender o contexto e fazer escolhas; e Ser remete à identidade e à cultura que oferecem coerência ao conjunto. A metodologia da AYUS propõe essa visão integrada justamente porque uma organização desenvolve sua capacidade de gerar transformação e valor pela articulação dessas diferentes dimensões, e não pela evolução isolada de uma delas.

Um investidor pode colocar mais capital à disposição da empresa e, ainda assim, encontrar dificuldade para transformá-lo em crescimento caso a organização não saiba priorizar boas oportunidades. Pode ampliar significativamente sua base de dados e permanecer tomando decisões de maneira essencialmente intuitiva. Pode contratar executivos experientes e descobrir que a estrutura de poder existente oferece pouco espaço para que assumam responsabilidades. Pode adquirir tecnologia e perceber, alguns anos depois, que os processos continuaram praticamente iguais. Pode crescer rapidamente e descobrir que a complexidade criada pelo próprio crescimento passou a consumir uma parcela crescente da energia da organização. Em todos esses casos, existe Ter. O que permanece em construção é a capacidade de transformar aquilo que existe em resultado.

Essa passagem ganha uma importância ainda maior quando há uma janela de saída definida, porque o tempo também faz parte da tese de criação de valor. Uma capacidade que a empresa precisará possuir daqui a três anos talvez tenha de começar a ser desenvolvida hoje, especialmente quando envolve formação de liderança, mudança cultural, integração de conhecimento ou construção de uma nova maneira de operar. Há capacidades que podem ser compradas ou contratadas em prazo relativamente curto; outras dependem de um processo de aprendizagem organizacional que precisa amadurecer dentro do próprio sistema e, por essa razão, dificilmente responde à mesma velocidade de uma decisão financeira.

A própria abordagem estratégica da AYUS parte dessa relação entre realidade atual, aspiração de futuro e competências essenciais necessárias para realizar a transição, reconhecendo que definir onde a organização deseja chegar representa apenas parte do trabalho e que a concretização desse movimento depende da compreensão das capacidades que precisarão ser instaladas ou desenvolvidas ao longo do percurso.

Nesse sentido, um horizonte de saída claro pode exigir investigar que competências precisarão existir dentro da empresa para que esse valor seja possível naquele prazo, quais já estão instaladas e podem ser potencializadas, quais ainda estão excessivamente concentradas em determinadas pessoas e quais precisarão ser desenvolvidas porque a estratégia futura exigirá uma organização diferente daquela que existe hoje.

A discussão deixa, assim, de estar centrada apenas na projeção de valor e passa a incluir a capacidade de realizá-lo.

Isso também ajuda a compreender por que a preparação para a venda da empresa frequentemente traz benefícios que ultrapassam a própria transação. Ao olhar para o negócio com maior rigor, os sócios costumam encontrar dependências, riscos, fragilidades de processo, lacunas de liderança e informações pouco estruturadas que permaneceram administráveis durante determinados períodos de crescimento, mas podem limitar o próximo ciclo. Quando esse olhar se transforma em desenvolvimento real da organização, a preparação para uma futura saída contribui para fortalecer justamente aquilo que deverá sustentar o preço esperado.

A situação se torna mais delicada quando a pressão para alcançar esse preço começa a produzir uma concentração excessiva naquilo que pode ser percebido e mensurado mais rapidamente. Dentro de uma janela temporal definida, existe uma tentação compreensível de privilegiar iniciativas capazes de apresentar impacto financeiro visível no curto prazo, mesmo quando a tese de criação de valor também dependerá de capacidades cujo amadurecimento acontece em ritmos menos imediatos.

Uma empresa pode, por exemplo, postergar o desenvolvimento de lideranças porque o retorno dessa iniciativa parece mais difícil de traduzir em uma projeção financeira, embora sua estratégia de expansão dependa justamente de maior descentralização. Pode preservar excessivamente uma estrutura de decisão que funcionou bem durante anos porque reorganizá-la consumiria tempo e energia, ainda que a dependência dos fundadores represente um risco evidente para um futuro comprador. Pode perseguir crescimento comercial sem desenvolver processos na mesma velocidade, produzindo um resultado interessante por determinado período enquanto aumenta a fragilidade da operação que precisará sustentar esse crescimento mais adiante.

Quando existe uma tese clara para a venda da empresa uma questão importante é compreender que o preço-alvo descreve o lugar aonde se deseja chegar, enquanto o caminho será construído pelas capacidades que a organização conseguir desenvolver entre o momento atual e aquele ponto futuro. O valor da empresa depende dos resultados que conseguimos observar e também das capacidades que tornam esses resultados realizáveis, repetíveis e adaptáveis às condições que surgirão ao longo do tempo.

Quanto mais curto ou exigente for esse horizonte, mais relevante se torna identificar essas capacidades cedo, porque algumas decisões econômicas podem produzir efeitos quase imediatos, enquanto mudanças relacionadas à liderança, cultura, aprendizagem ou conhecimento exigem tempo de maturação. Concentrar a atenção apenas no Ter pode, nesse contexto, produzir justamente o efeito contrário ao desejado: uma organização aparentemente mais próxima de seus indicadores de saída e, ao mesmo tempo, menos preparada para sustentar a geração de valor necessária quando o momento da transação chegar.


 
 
 

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